#43 - Uma História Singular

Publicado
Comentários Nenhum


“A história singular cria estereótipos, e o problema dos estereótipos não é que não sejam verdadeiros, mas é que sejam incompletos. Eles fazem uma história tornar-se a única história.”

Chimamanda Ngozi Adichi


Vi recentemente uma impressionante TED TALK da escritora Chimamanda Ngozi Adichie. Era sobre os perigos da história singular, de ter apenas uma história como base da nossa compreensão de uma determinada cultura, lugar, povo ou até mesmo de um indivíduo. A falta de perspectivas adicionais cria estereótipos, ideias tendenciosas e preconceitos. A escritora fala sobre as suas próprias experiências de ser vista através dos olhos dos outros como alguém que vem de África … “um lugar de belas paisagens, belos animais e pessoas incompreensíveis, que lutam guerras sem sentido, morrem de pobreza e SIDA, incapazes de falar por si próprios e à espera de serem salvos por um amável estrangeiro branco.”

A palestra de Adichie foi ainda mais impressionante pelo facto de ela própria reconhecer também acreditar, ocasionalmente, numa história singular. Num exemplo de quando era criança, a crescer na Nigéria, acreditava inocentemente que as personagens da literatura tinham de ser brancas, tinham de beber cerveja de gengibre e tinham de falar muito sobre o clima. Ela tinha uma história singular do que a literatura era ou deveria ser. Um salto compreensível, considerando que ela era extremamente jovem e impressionável e que só tinha acesso a livros de escritores Americanos e Britânicos.

Ao segundo exemplo que ela deu, falta a inocência infantil do primeiro. Foi quando, já em adulta, visitou o México a partir dos EUA. Ficou surpresa com os mexicanos que encontrava enquanto caminhava ao redor de Guadalajara, a caminho dos seus trabalhos, a rir e a divertirem-se no mercado… simplesmente a fazer as suas coisas. De repente ficou esmagada pela vergonha porque, enquanto caminhava pela cidade, percebeu que tinha sido tão influenciada pela versão dos media acerca dos mexicanos que eles se tinham tornado uma coisa na sua mente, o imigrante desgraçado.

O que eu mais gostei da sua palestra foi que realmente me levou a examinar os meus próprios “demónios” … as histórias singulares em que eu própria acreditava. Cerca de uma semana depois de assistir à palestra de Adichie, li um artigo que tinha visto no Facebook. Um artigo muito bem escrito por uma professora do ensino secundário que assinalava o facto de os adolescentes serem injustamente julgados e desvalorizados pelos adultos. Cantou louvores aos adolescentes e disse que enquanto professora americana, tinha menos medo da crescente violência (por exemplo, do assassinato em massa e intimidação) na rede pública de ensino do que ser questionada acerca do que fazia para viver. Isto porque, quando ela respondia a essa pergunta, a maioria das pessoas balançavam a cabeça em tom de piedade e começavam a perguntar como ela lidava com o seu dia-a-dia a trabalhar com adolescentes. A realidade era que ela adorava o seu trabalho e os alunos que estava a servir. Deu-me uma perspectiva totalmente diferente do adolescente que estava muito longe dos seres impulsionados pelas hormonas, que tinham pouco respeito pelas regras ou pelos outros, ou que não tinham nenhum senso de lealdade para com nada. Adorei o artigo porque me deu outra história acerca do adolescente… uma das que previamente falhei por apenas ver os estereótipos, das noções degradantes que muitos temos dos jovens de hoje. Era conhecida por fazer piadas sobre como irei sofrer quando a minha filha atingir os anos da adolescência. Senti-me envergonhada quando tomei consciência que estava a ver uma história incompleta e demasiadamente singular da adolescência. E sinto-me aliviada, pois desde então alarguei a minha perspectiva.

Basta dizer que ninguém está isento de “comprar” uma qualquer história singular. Até mesmo as pessoas com a mente mais aberta o fazem de tempos a tempos. Todos somos culpados de olhar para algo ou alguém de uma forma singular sem nos preocuparmos em pensar nas diferentes perspectivas que nos permitiriam ter uma imagem mais verdadeira e completa daquela que estávamos a ver previamente. O melhor que podemos fazer é reconhecer que temos tendência para estereotipar demasiado facilmente e portanto, fazer ponto assente que devemos procurar todas as outras histórias particulares das pessoas, culturas, etc. Desta forma poderemos completar e aprofundar as nossas perspectivas e nos tornarmos numa sociedade global mais afectuosa e acolhedora.

*Para ler o artigo acerca dos adolescentes, clique aqui…

Autor

Comentários

Não existem actualmente comentarios a este artigo

Comment

Insira o seu comentário abaixo. Campos marcados * são necessários. Deve previsualizar o seu comentário, antes de finalmente o inserir.





← mais velho mais recente →