#35 - INDEPENDÊNCIA

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“A minha vida não é uma desculpa, mas é uma vida. É para si mesma e não para um espectáculo. Prefiro muito mais que seja discreta, genuína e igual do que brilhante e instável.”

- Ralph Waldo Emerson, Self-Reliance

INDEPENDÊNCIA. Um dicionário define independência como “a liberdade e a capacidade de tomar as suas próprias decisões na vida, sem ter de pedir permissão, ajuda ou dinheiro a outras pessoas. Tenho pensado muito acerca desta palavra ultimamente, desde que um dos meus alunos mencionou (com as melhores intenções) que eu seria muito mais independente se tivesse carta de condução. Sempre que me dizem isso (e foi-me dito muitas vezes), uma infinidade de sentimentos surgem dentro de mim. Sinto-me culpada, como se eu, de alguma forma não cumprisse com as expectativas da sociedade. Sinto raiva por me sentir culpada e por ser tão duramente julgada por não cumprir. Finalmente, sinto-me confusa com as conformidades da nossa sociedade na realização de certas normas como indicadores de independência, ignorando outros indicadores que atestam de igual forma a nossa necessidade inerente de independência e dependência.

De um modo geral, a sociedade desaprova as pessoas que recusam ou rejeitam a ideia de adquirir as ‘coisas’ que são simbólicas de sucesso e independência, como o carro, uma casa grande, etc. No entanto, a sociedade promove a dependência na forma de união, muitas vezes, onde as pessoas encontram e escolhem parceiros ou cônjuges com base em quão bem eles se podem apoiar financeiramente. A essas pessoas é muitas vezes dito que fizeram bem, apesar do facto de a sua principal motivação poder ter sido a de que queriam adquirir coisas que melhorassem o seu status e / ou porque estavam com medo de ir contra as normas da sociedade. Parece hipócrita que a maioria dessas mesmas pessoas sinta que adquiriram a sua independência por poderem dar uma volta de carro.

Eu saí da casa dos meus pais alguns meses depois de fazer 18 anos. Lembro-me da minha carrinha Volvo Pinto castanha, a ponto de estourar. Sim, eu conduzia na altura! Como vivia na vasta área suburbana nos arredores de Washington, DC, eu literalmente não tinha alternativa. Nos subúrbios nos EUA não existem lojas locais, ao contrário das aldeias típicas Portuguesas com os mini-mercados, talhos, mercearias e cafés. É realmente necessário um carro para ir a um café, supermercado, etc.

No dia em que saí da casa dos meus pais, tinha provavelmente cerca de 40 Dólares até receber o meu próximo cheque e os meus pais não me ajudaram de forma a amortecer a minha mudança com um “financiamento extra”, mas isso não importa. Na verdade, de certa maneira, tornou tudo ainda mais doce. Senti uma sensação de liberdade, um sentimento de independência que nunca tinha sentido antes. O mundo estava-se a abrir diante de mim. Estudaria numa Faculdade comunitária (até surgirem novas oportunidades), pagando a minha própria renda e gerindo as minhas contas sem receber um cêntimo dos meus pais! Tinha o sonho de me mudar para a grande cidade…Washington, DC. Depois talvez Nova Iorque ou Los Angeles!

Acabei em Washington, DC em menos de um ano depois de sair da casa dos meus pais, onde vivi até partir para Nova Iorque com 22 anos. Nessa altura, os meus pais ofereceram-me 500 Dólares como presente o que, após muitos anos de luta, feliz e amavelmente aceitei. Foi a primeira vez que recebi dinheiro dos meus pais, depois de ter saído da casa deles quatro anos antes e não recebi mais até hoje.

Isso não quer dizer que eu não tenha recebido ajuda ao longo do caminho. A minha família tem-me apoiado de variadas formas ao longo da minha vida. Tenho tido a sorte de ter amigos (tanto nos EUA como aqui em Portugal) que me têm ajudado, dando-me apoio emocional para me ajudar a ultrapassar os momentos mais difíceis. Além disso, sei que tenho podido e posso continuar a contar com a minha família portuguesa para um pequeno empréstimo se e quando necessitar de um.

O que pretendo realçar aqui (sim… tenho um ponto de vista) é que me oponho aos julgamentos relativos à minha independência (ou falta dela) com base no facto de eu não ter carta de condução. Tenho vivido, pela maioria dos padrões, uma vida extremamente independente. Tenho sido capaz de criar uma vida com a qual me sinto feliz. Tenho uma esposa e uma filha maravilhosas, com as quais tenho a bênção de poder partilhar a minha vida. Sou a força criativa da minha vida com a minha própria voz e opiniões, tanto apesar e devido à minha dependência daqueles que amo, bem como ao meu sentimento de independência. Independência e dependência não são conceitos mutuamente exclusivos, mas sim partes de um todo.

A principal preocupação da sociedade é a criação de riqueza e status. Assim, o carro (que é claro se espera que se siga à carta de condução) torna-se mais um daqueles falsos símbolos de sucesso e de independência. O poeta e ensaísta, Ralph Waldo Emerson, disse, “um homem culto torna-se envergonhado da sua propriedade, com vergonha do que ele tem, por respeito ao seu próprio ser.” De acordo com Emerson, a aquisição de bens e mercadorias é essencialmente um acidente… uma falsa recompensa impingida pela sociedade. No ensaio de Emerson intitulado auto-suficiência, ele sugere que confiar em si mesmo é a chave para a satisfação e que isso provém da descoberta e da cultivação dos seus talentos mais íntimos.

A realidade é que eu quero tirar a carta de condução, mas não por querer o meu lugar de obediente e tornar-me uma peça de sucesso na engrenagem da sociedade. Quero fazê-lo porque é uma questão de segurança para minha família e para mim. No entanto, eu não acredito que o facto de não ter carta de condução viole de forma significativa o meu sentido inerente de independência… ou dependência.

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