#34 - Vivendo sob drones

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“Não pode haver revelação mais gritante da alma de uma sociedade do que a forma como ela trata os seus filhos.”

- Nelson Mandela

Não há muitos dias que passem que eu não lamente profundamente aquelas 20 crianças que foram cruelmente assassinadas em Newton, Connecticut hà 1 ano atrás no dia 14 de Dezembro. A minha alma literalmente se estilhaça repetidamente, levando-me muitas vezes às lágrimas nos locais mais inesperados… no autocarro, a decorar a árvore de Natal, a dar uma aula. Tento manter a compostura nas situações mais públicas, mas em privado permito que a tristeza se manifeste livremente.

Muito dos pais dessas crianças têm incrivelmente sido capazes de avançar, trabalhando incansavelmente na segurança, em leis de armas mais sensatas e em trazer mais consciência para as questões da saúde mental, que assola os Estados Unidos. Eles continuam a honrar a memória dos seus filhos. Infelizmente, muitas pessoas aparentam ter memória curta ou estão mais preocupadas com uma ideia distorcida de liberdades civis, o que torna o seu progresso lento vendo pela continuidade de mortes relacionadas com armas desde o massacre.

Desde que me tornei mãe, a minha propensão para sentir dor em resultado deste tipo de tragédias, especialmente quando as vítimas são crianças, aumentou exponencialmente. Ainda assim reconheço que o que sinto é apenas uma pequena parte daquilo que aqueles pais que perderam os seus filhos sentem a cada minuto, a cada hora, cada dia.

Sei que a tragédia de Newton me atingiu particularmente devido à época do ano (época de Natal) em que ocorreu e à ligação cultural que tenho a essa altura do ano. É difícil de suportar sabendo que a vida destas crianças terminou num incompreensível horror quando, apenas momentos antes, os seus pensamentos estavam em fazer casas de gengibre.

No entanto, este evento também tem sido um catalisador para elevar a minha consciência do que as nossas crianças (as crianças do mundo) suportam. Frequentemente as crianças morrem tanto de horrores evitáveis como inevitáveis.

Claramente que os horrores inevitáveis (por exemplo, as catástrofes naturais) deixam buracos nos nossos corações, mas para aqueles que prestam mais atenção, eles podem, por vezes, deixar um gosto muito amargo quando as mortes resultantes poderiam ter sido menos (às vezes muito menos) se houvessem infra-estruturas melhores e mais justas a nível global.

Sim… seria bom se todos nós pudéssemos concordar que a vida de todas as crianças têm o mesmo valor e não simplesmente ignorar o que acontece fora das nossas fronteiras. O sentimento geral Americano é aquele que coloca um valor desproporcional à ideia de cuidar dos seus e de cuidar de outras crianças no mundo. Não me interpretem mal. Cada sociedade precisa começar na sua casa, mas isso não quer dizer que se pare por aí, sem dar atenção às crianças que morrem noutras partes do mundo… muitas vezes em nome da segurança económica para os americanos.

O Presidente Obama estava à beira das lágrimas no seu discurso emocionado após o massacre de Newton em Dezembro de 2012. O que se aplica às crianças assassinadas por um jovem mentalmente doente também se deveria aplicar às crianças assassinadas no Paquistão, no Iêmen e em outros lugares pelos drones de Obama. Como George Monbiot escreveu no The Guardian, em Dezembro de 2012, ‘essas crianças são tão importantes, tão reais e tão merecedoras da preocupação do mundo’. Ainda assim o terror que essas crianças sofreram antes de perecer raramente faz manchetes e é, na melhor das hipóteses, mencionado como um dano colateral infeliz.

O que há de errado connosco? Um relatório das faculdades de direito das universidades de Stanford e de Nova Iorque diz que as crianças gritam de terror ao som dos drones e que sofrem de distúrbios mentais, medo de participar em grandes ajuntamentos ou de ir para a escola com receio de serem atingidos. Danos colaterais certamente parece ser um termo inadequadamente frio para aplicar em tais situações.

O que há de errado connosco? Por que é que o mundo põe tanta energia (diplomática ou não) na questão das armas químicas na Síria, e não faz o mesmo para garantir a segurança e o bem-estar das crianças da Síria que estão deslocadas e a morrer à fome?

Muitas morreram devido a bombas. Há uma estimativa de 200.000 crianças sírias refugiadas que não irão à escola o resto do ano, juntando-se às outras 25 milhões em idade escolar por todo o mundo que estão fora da escola por questões relacionadas com guerra. Poderia escrever acerca de muitas outras áreas do mundo mas acho que já têm uma ideia.

Está na altura de começarmos a tratar das nossas crianças… todas as nossas crianças.

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