#33 - Tributo de Obama a Mandela

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“O que conta na vida não é o mero facto de termos vivido. É a diferença que fazemos na vida dos outros que determinará o significado da vida que levamos.”

- Nelson Mandela

No seguimento da morte de Nelson Mandela a 5 de Dezembro, fomos arrebatados com os políticos de todo o mundo a cantar os seus louvores. Embora as palavras das comemorações realizadas sejam verdades inegáveis e maravilhosamente impressionantes sobre o grande Estadista que foi, no final, eu não pude deixar de sentir que vários, não tão grandes políticos, aproveitaram a oportunidade para “apanhar a boleia” de Mandela…para de alguma forma partilhar a sua grandeza, como um cabide. Fiquei ainda mais incomodada quando alguns dos aparentemente “melhores” partilharam as suas perspectivas acerca deste grandioso senhor.

Talvez os políticos devessem ser proibidos de elogiar homens e mulheres cuja integridade nunca tenha vacilado, independentemente das consequências sofridas nas suas vidas. Durante a minha vida ainda não houve um político americano que de uma forma ou de outra (ainda que em diferentes graus) não tivesse abraçado o que Jonh Pilger chama de “a maior mentira: o produto dos ’ realistas liberais’ na política anglo-americana, (…) que se ordenam como gestores da crise e não como a sua causa”. Por outras palavras, os políticos (e o jornalismo corrente) representam o interesse corporativo ao invés do interesse e do bem-estar do público em geral. Se olharmos simplesmente para o “processo de seleção”, que o governo dos EUA utiliza para decidir contra que ditadores ‘agir’, podemos ver que sempre houve algum tipo de interesse corporativo por trás.

O facto de Obama (por exemplo) ter sugerido que Mandela era um exemplo para ele, ofendeu a minha sensibilidade:

“Eu sou um dos incontáveis milhões que se inspirou na vida de Nelson Mandela. A minha primeira acção política, a primeira coisa que fiz que envolveu uma questão ou uma directiva ou política, foi um protesto contra o apartheid. Estudei as suas palavras e seus escritos. O dia em que ele foi libertado da prisão deu-me a sensação daquilo que os seres humanos podem fazer quando são guiados pelas suas esperanças e não pelos seus medos. E como muitos em todo o mundo, eu não posso imaginar plenamente a minha própria vida sem o exemplo que Nelson Mandela legou, e enquanto eu viver farei o que puder para aprender com ele.”

(Barack Obama, 05 de Dezembro de 2013)


Estas palavras são praticamente ofensivas para mim quando ‘o “humanitário” Obama supervisiona pessoalmente uma rede de terror mundial de drones que esmaga (bugsplat 1) pessoas, equipas de resgate e enlutados‘ (Pilger, The Guardian, 10 de Setembro de 2013). Como Pilger sugere, o avanço social que, sem dúvida, advém de ter o primeiro líder negro num país com raízes profundas nas atrocidades da escravidão, não é suficiente para substituir o rastro de sangue que os ataques com drones de Obama vão deixando. Da mesma forma, corajosamente vem tentando estabelecer um sistema de saúde mais justo contra a grande oposição corporativa (embora maravilhoso) também não é suficiente para justificar as muitas mortes de civis causadas fora da zona de conforto dos EUA.

Obama, que recebeu o Prémio Nobel da Paz em 2009, com base em nada mais do que mediatização e fama de estrela, tem supervisionado a expansão do programa de assassinato selectivo da CIA. Estima-se de acordo com o Bureau of Investigative Journalism, que esses ataques com Drones mataram entre 2.528 e 3.648 pessoas no Paquistão desde 2004. Esta mesma organização também estima que entre 416 e 948 desses mortos em ataques aéreos eram civis. Embora a administração negue esses números, o meu instinto diz-me que estes números possam provavelmente ser ainda mais altos

De acordo com a Amnistia Internacional, entre os civis mortos encontrava-se uma avó (e parteira) Paquistanesa de 67 anos, ao lado de 18 trabalhadores civis Paquistaneses num ataque em 2012. A família desta avó veio recentemente a Washington, DC, depor perante o Congresso e pedir o fim da guerra de Drones. Obviamente, nada foi aprendido com o testemunho da neta de nove anos, vendo pelo resultado de um dos mais recentes ataques que atingiu a caravana de um casamento no Yemen, na província de Al-Baitha, em que 14 pessoas morreram e 22 ficaram gravemente feridos. E quanto à afirmação de Obama relativa a ataques drone…”Antes de qualquer ataque, deve haver quase a certeza que nenhuns civis serão mortos ou feridos – o padrão mais alto que pudermos estabelecer.” Oops!

E não são só os ataques drone!! Obama fala de uma “linha vermelha” estabelecida aquando das negociações com o governo Sírio e armas químicas. No entanto, a sua “linha vermelha” cai no esquecimento quando se trata das armas químicas usadas no Iraque. Tenha vergonha, Sr. Presidente.

É tempo de Obama “apostar naquilo que diz” e tomar uma posição contra a violação dos Direitos Humanos em todo o mundo, a começar pelo seu próprio quintal. É tempo para os muitos intervenientes da política anglo-americana, media e para os estudiosos deste assunto começarem a assimilar os valiosos ensinamentos de Nelson Mandela no coração e demonstrá-lo em ações, em vez de apenas deitarem palavras da boca para fora.

  1. nome do software do departamento de Defesa dos E.U.A. para calcular e reduzir riscos colaterais (civis mortos) resultantes de ataques aéreos

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