#31 - Porque não nos podemos dar todos bem?

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“Povo, eu só quero dizer, vocês sabem, podemos todos dar-nos bem?”

- Rodney Glen King (numa conferência de imprensa improvisada durante os motins de 1992 em Los Angeles)


Há pouco tempo alguns alunos e eu estávamos a conversar acerca do Halloween. Uma aluna expressou alguma irritação pelo facto de tantos portugueses começarem a celebrar o Halloween sendo que já têm uma celebração equivalente, o Pão por Deus, celebrado no 1º de Novembro. Apesar de ambos terem origens semelhantes, eu podia perceber. Embora as tradições de cada país mudem e se alterem ao longo dos tempos, por vezes é difícil adaptar-nos quando essas mesmas mudanças vão contra as memórias felizes e a antecipação futura dos rituais que nos habituámos a gostar.

Outra aluna mencionou rindo que preferia “importar” o Halloween da América em vez de armas e outros tipos de violência muito comuns nos EUA. Para ilustrar um exemplo negativo de uma “importação dos EUA” ela mencionou um trágico e recente episódio em Lisboa em que um miúdo esfaqueou alguns colegas e a assistente da professora, esta aparentemente faleceu. O autor tencionava encenar um tiroteio em massa (como nos EUA) mas não conseguiu ter acesso a uma arma.

Embora concorde com ela que preferiria o ”doçura ou travessura” em vez de um tiroteio, senti quase que como um pontapé no estômago enquanto ela fazia a sua afirmação. A implicação parece ser que o fenómeno do tiroteio em massa que assola os EUA possa ser visto de alguma forma como uma “coisa americana” semelhante à tarte de maçã, basebol, Pai Natal ou Halloween.

Apesar de reconhecer que o problema dos tiroteios em massa é um fenómeno único dos EUA em termos da sua frequência e embora esteja assustada com a forma como estes actos violentos se estão a tornar cada vez mais prevalentes noutras partes do mundo, sinto o identificar da violência com armas na categoria de “coisa americana”, ao lado de outras coisas mais sadias dos EUA (por ex. Halloween, etc), como um desrespeito pelos muitos fantásticos Americanos que reconhecem este fenómeno como um problema e trabalham para o controlar. Tendo embora a certeza que a minha aluna não tencionava fazer-me sentir desconfortável, não consegui deixar de sentir que estaria a perpetuar um sentimento anti-americano.

Enquanto Americana a viver em Portugal, certamente já tive mais que a minha parte de sentimentos anti-Americanos. O mais memorável aconteceu no 11 de Setembro, enquanto estava a dar uma aula numa empresa na zona de Lisboa. Um dos grupos estava a assistir na televisão ao desenrolar da tragédia no átrio da empresa. Uma das minhas colegas na altura, que por acaso era Polaca, passou por mim quando o 2º avião embateu na 2ª torre e disse-me: ‘Só espero que os EUA não façam nada estúpido.’

Bem, todos sabemos que o governo americano afinal fez mesmo algo estúpido mas, naquele momento, quando eu apenas esperava que a minha irmã e todos os amigos que tinha a viver ali estivessem a salvo, achei o comentário completamente desprovido de gosto e de sensibilidade humana.

O facto é que grande maioria dos Americanos era contra a invasão do Afeganistão. As guerras que a América trava são sistematicamente promovidas em nome da economia e do poder político. Muitos Americanos ou sofreram uma lavagem cerebral para aceitar as mentiras ou são completamente contra. De qualquer forma, a maior parte dos Americanos sentem-se impotentes para fazer algo – tenho a certeza que também a maioria dos Portugueses se conseguem rever nesse sentimento.

Tal como Rodney King sugeriu em 1992, vamos todos tentar “dar-nos bem”. Lembre-se… todos nós somos mais semelhantes do que diferentes.

Courtney How, Managing Director

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Comentários

  1. Ana Neves

    Cara Courtney, é sempre um desafio intelectual ler as crónicas LU e esta não foi diferente.
    De facto, tocou-me num nervo: também eu me irrito com a importação do Halloween!
    Nem sequer sou religiosa (e por isso nem tenho nenhuma predilecção pelo ‘pão por Deus’), mas irrita-me a permeabilidade exagerada a hábitos que não nos dizem nada.
    Concordo que prefiro esta importação a outras. A cultura americana influencia fortemente a cultura portuguesa e prefiro que seja com ‘mascaradas’ do que com ‘burradas’.
    Não obstante, pergunto-me onde andará a identidade portuguesa? Ou será que, à força da nossa adaptabilidade e pelos momentos difíceis que atravessamos periodicamente, nunca conseguimos cimentar verdadeiramente uma identidade?…
    Abraços e muitas saudades das nossas aulas!

  2. Courtney How

    Hi Ana. Thanks for your response. I completely understand feeling uncomfortable with other culture’s traditions seeping in. However, I find it rather avoidable in a globalized world.Somebody that lives thousands of miles away from their country should be encouraged to pay tribute to their customs and rituals. I guess the most important thing to keep in mind is that we (no matter where we are from) need to hold tight to our traditions and rituals without begrudging others of theirs. I agree that cultural identity is vital. One aspect of the Portuguese identity that I appreciate is their openness to other cultures…in general. My point is that ,as individuals, we have to be respectful of one another. I had just found it difficult to take the lumping together of mass shootings with a holiday. They are not the same.

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