#27 - Por falar em Direitos Civis...

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“Teremos de nos arrepender ainda nesta geração, não somente
pelas palavras de ódio e actos das pessoas más, mas pelo silêncio assustador das pessoas boas ”

– in “Letter from Birmingham Jail”, Martin Luther King (1963)

Na sequência da Newsletter do mês passado, pensei em continuar a refletir sobre assuntos relacionados com Direitos Civis. Enquanto defensor dos Direitos Humanos (e, por vezes, ativista), não me posso ajudar a mim própria.

Direitos Civis é um assunto delicado para muita gente, especialmente se alguém não estiver confortável com algum assunto em particular que esteja em discussão. No mundo ocidental, muitos Governos e indivíduos lidam com questões que surgiram relacionadas com os Direitos Civis, desde os direitos religiosos aos direitos gays. Claro, a igualdade de género e racial continuam a ser questões muito importantes, para não referir os direitos de classe. A partir destas questões surgem muitos outros importantes (alguns dos quais dominam a atualidade), como o acesso aos cuidados de saúde e o direito ao casamento gay (ambos questões importantes nos EUA nos últimos anos), o acesso à educação, a igualdade salarial… só para nomear alguns.

Espero que as várias questões sobre direitos civis tragam sempre com elas discussão, debate, discurso e até mesmo mortes. As pessoas são apaixonadas e frequentemente inflexíveis nas suas crenças e desejo de alterar o mundo de acordo com os seus valores. Todos nós temos os nossos limites para o que consideramos aceitável.

Aprecio a paixão mesmo que discorde totalmente da posição que a pessoa esteja a tomar. Se estão apaixonadas pela questão, isso significa que estão dispostas a erguer-se por algo. Enquanto nenhuma das partes ativas infrinja os direitos humanos dos outros (vocês sabem… os direitos universalmente aceites independentemente da nacionalidade, religião e etnia), então a diversidade de crenças e opiniões torna a sociedade mais interessante.

Há algo que eu acho muito mais perturbante que as posições ridículas (muitas vezes estúpidas) que algumas pessoas assumem perante certas questões de direitos civis (normalmente baseadas na intolerância, preconceitos étnicos e religiosos, etc.). Pelo menos com essas sabemos com o que podemos contar. A maior culpada no sentido de garantir as liberdades civis para todos é a APATIA, a indiferença perante a desigualdade. Isto é visto nos mais variados graus, tanto em Portugal como nos EUA, para não dizer na maioria dos outros países no mundo.

Um exemplo é a apatia racial. A expressão de apatia racial é um aparelho pelo qual a desigualdade racial e étnica perdura. E torna-se mais perigosa ao sustentar um sistema de desigualdades que restringe oportunidades às minorias étnicas e raciais. Um bom exemplo disso foi o reflexo da desigualdade racial no rescaldo do Furacão Katrina. Para a maior parte, podem chocar-se com a perda de 1000 vidas por apatia. O Furacão Katrina não podia ter provocado tal devastação não fosse pela negligência e abandono dos pobres e marginalizados na área de New Orleans. Sem dúvida que foi um desastre natural. Mais preocupante, foi um desastre social.

Claro, existem outros exemplos preocupantes de apatia (para além da racial e étnica) visíveis aqui mesmo em Portugal, incluindo a apatia pelas questões relacionadas com os direitos gay, desigualdade de género e questões relativas aos deficientes físicos ou mentais. Precisamos de perceber que a nossa indiferença, embora nem sempre com intenções maliciosas, pode ter consequências bastante perigosas. No mínimo, leva-nos a apoiar passivamente um estatuto desigual. Está na hora de começar a fazer peso na balança, quer isso signifique apenas tentar ter uma mente mais aberta e compassiva para com as questões que não nos afetam diretamente ou que tenhamos de ser nós mesmos a segurar nos cartazes e fazermos ouvir as nossas vozes num protesto por direitos civis. Há um mundo muito grande lá fora… muito maior que os nossos pequenos universos.

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